Ela tinha cabelos ondulados bem compridos de cor semelhante ao mel. Sempre usava salto alto. Era sedutora. Olhar penetrante. Lembravam esmeraldas. A maioria dizia que seu jeito não era como o das outras mulheres. Seu riso parecia ser tão espontâneo quanto o seu jeito de ser. Seu cheiro não se assemelhava a nenhum perfume conhecido. Suas palavras eram sempre friamente calculadas para deixar qualquer um interessado em ser seu amigo, seu confidente, seu amante. Aqueles que não a amavam, invejavam seu conjunto aniquilador. Apaixonante é a palavra que a melhor definia.
Rosto angelical e alma de diabo ou rosto diabólico e alma de anjo? Ninguém ao certo poderia dizer. Ninguém ao certo saberia dizer. Ela não era apenas uma pessoa. Era várias. Talvez a baixa estima que tivesse feito isso. Talvez fosse o medo de se machucar. Poderia ser também a sede por diversão, por adrenalina, por perigo. Sua vontade era tanta de jogar que o jogo em si não importava mais, os participantes tão pouco. O que realmente importava era por em prática suas técnicas, suas estratégias, seu apelo, sua magia, sua maldade. Ninguém poderia imaginar que por trás de toda aquela segurança, vivia uma frágil menina. Uma menina que gostaria de ter mais fé nas pessoas, que gostaria de não ter que ferir primeiro porque temia ser ferida depois. Uma menina que gostaria de encontrar o seu príncipe encantado e ser feliz para sempre.
Foi então que aconteceu o imprevisível porém necessário: se apaixonar. Ela viu que não importava os saltos, não importava o cheiro, não importava o cabelo, não importava o jogo. O que realmente importava estava além do que seus olhos poderiam ver no espelho. Sua aparência poderia lhe trazer prazeres imediatos. Seu charme poderia lhe trazer pretendentes. Sua tática poderia lhe trazer a vitória. No entanto, a felicidade verdadeira estava além do que se poderia construir num só jogo. A felicidade verdadeira vem de algo mais demorado, mais longo, menos intenso, mais trabalhado. E apenas aqueles que amam quem realmente são, atingem esse patamar. Não era possível ser feliz jogando com os outros. Não era possível ser feliz jogando com ela mesma.
Foi então que a paixão veio pela pessoa em que ela menos acreditava. Foi, de repente, que a solução para toda a sua angustia foi encontrada. Foi então que ela descobriu o que estava em sua frente todo esse tempo: ela mesma. Ela sem as máscaras. Sem as roupas. Sem a maquiagem. Sem o salto. Sem as táticas. Sem o perfume. Sem o jogo. Ela que poderia ser não tão apaixonante, mas sim completamente apaixonada. Apaixonada pela vida, pelas pessoas, por si mesma. E foi assim que ela foi encontrando o caminho para ser feliz, aquele que é trilhado dia após dia. Semana após semana. Mês após mês. Ano após ano. Aquele que não é repleto de vitórias, mas, sem a menor dúvida, preenchido de satisfação.
Dizem que o oposto de guerra não é paz, é criação. Também falam que o contrário de amor não é raiva, é indiferença. Ela que era tão desapegada com si mesma, com todos ao redor e com o mundo, agora não era apenas "apegada". Agora ela era feliz. E foi assim que ela descobriu que felicidade é o verdadeiro oposto de desapego.
E.C.P.
Nenhum comentário:
Postar um comentário