Ele é um cara romântico. Mas hoje algo o impede. O impede de sentir o que ele sempre fugiu de sentir, o impede de ser o que ele sempre fugiu de ser. Hoje ele aceita sua condição de romântico. Ele olha para o passado, para o presente, e consegue imaginar o futuro. Ele imagina o amor perfeito. A sua alma gêmea que ainda não lhe foi apresentada. Mas algo impossibilita-o de colocar em prática toda a sua vulnerabilidade. Alguma coisa dentro dele torna-o difícil. Deixa-o complexo. Complicado. O faz ser duro com si mesmo e com todos aqueles que estão a sua volta.
Seu primeiro relacionamento foi o momento onde ele mais se entregou, foi quando ele vestiu a fantasia de “perfeito romântico”. Fazia presentes, escrevia cartas, se dedicava. Imaginava como seriam seus filhos, sua casa, sua relação, seu futuro. Olhava para os seus olhos e era possível enxergar todo o resto de suas vidas. Porém algo estava errado, faltava algo, não na relação, e sim nele. Ele fugiu disso. Tentou escapar, mas não conseguiu. Viu que era inevitável. A nossa cabeça funciona de uma forma única. Essa é talvez a característica mais marcante dos seres humanos. Eles são específicos. E ele viu que ele era diferente, diferente dos outros caras numa forma específica. Ele precisava de algo que nela ele não via. Ele precisava de algo que nela ele não havia encontrado. Sua imaginação o levou a acreditar que, admitindo pra si mesmo e para os mais próximos sua situação, ele iria melhorar, e todos os seus problemas iriam se resolver. Poderia ser difícil, mas era necessário. Era fundamental para sua plenitude. Era fundamental para chegar o mais perto possível da normalidade. Porém, quanto mais ele tentava se encontrar, mais perdido ele ficava.
Ele tinha tudo: emprego, amigos, carro, respeito e confiança dos que ele mais amava. Ele foi perdendo um a um em meio a relacionamentos efêmeros onde ele imaginava que talvez fossem chegar a algum lugar. Mas não chegaram. Só o levou onde ele se encontra hoje, porém sem os artifícios de uma pessoa digna de respeito.
Teve aquele que o lembrava alguém da sua infância, talvez um amor perdido. Talvez alguém que um dia ele quis, mas não pode ter. Encantou-se, achou que este era o protótipo de relacionamento perfeito para ele, porém ele acabou por não se apaixonar. Errou ao se relacionar, errou ao tentar se entregar, o fez por carência. Por falta de carinho, por falta de alguém. O fez só para ter alguém para chamar de seu.
Outros vieram depois, cada um com sua característica especifica que chamava sua atenção. Mas nenhum seria igual e o faria ficar de joelhos igual aquele. Ah, aquele. Ele que tinha um jeito único. Que em meio a uma balada, quase derramou bebida em sua camiseta. Aquele que, de tão original, no final seria o mais mascarado de todos. Aquele que o acaso trouxe em sua vida. Aquele que o encantou e, instantes depois, era tudo o que ele sempre havia procurado. Foi por acaso, talvez não fosse para ter acontecido, talvez conhecê-lo tenha sido um dos maiores atrasos da sua existência. Mas ele se apaixonou, e ele quis absorver isso. Absorver tudo o que ele achava que havia de melhor. De mais útil. Porém, ainda sim faltava algo. Mas dessa vez não era nele. Era na relação. E foi então que ele percebeu que toda essa aceitação sobre si mesmo, nunca foi o real problema. O problema não estava em sua característica chave onde todos diziam que estava. O problema era mais profundo. Era mais complexo. Era menos superficial que uma simples aceitação. O relacionamento foi se desgastando, não foi possível para nenhum deles suportar. Acabou da pior forma. De forma a quase destruí-lo. De quase fazê-lo perder o chão. De, por um momento, ele acreditar que amor verdadeiro não existia. Ele quase não suportou. Deu alguns passos para trás, estagnou por alguns instantes, mas eventualmente voltou aos trilhos.
Conheceu alguns outros que fizeram seu batimento acelerar. Porém nenhum se equiparava aquele que um dia ele chamou de “meu amor”. Chegou a forçar sentimento. Forçar relacionamentos. Chegou também a perder a fé de tal forma a realmente acreditar que ele nunca deixara de amar aquele por quem havia se apaixonado. Foi então que, assim sem mais nem menos, ele enxergou uma pessoa que sempre estava por perto, outro que havia sido parte de uma traição que ele cometera em seu namoro. Um ser complexo, diferente, interessante, intrigante. Que, eventualmente aparecera após seu termino, mas que ele na hora não havia dado tanta atenção. E agora, vendo a situação com outros olhos, ele estaria pronto para se entregar completamente a outra pessoa, alguém que ele conhecia pouco, porém sabia muito. Alguém que ele havia interagido muito, porém conversado pouco, alguém de poucas palavras, mas de atitudes marcantes. Mas a pergunta ainda permanece: como agir com alguém que ele não faz ideia de como se relacionar? Como se aproximar do impenetrável? Esse desafio o instiga. Essa nova velha figura o intriga. E agora só havia um pensamento em sua cabeça: como conseguir de verdade algo que você nunca imaginou que fosse realmente querer?
E.C.P.
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