domingo, 16 de dezembro de 2012

Calma Interior


Muitas pessoas que conheço evitam ler o jornal de manhã – encontrar injustiças e coisas
ruins do mundo é uma maneira inquietante de começar o dia. É difícil ler sobre a corrupção
dos políticos ou sobre o tráfico de drogas e manter paz na mente, e é mais difícil ainda
saber como responder a isso. O conflito é ainda mais imediato quando você testemunha
uma injustiça, ou é vítima de uma, sendo ter sua carteira roubada, ou qualquer tipo de
comportamento revoltante contra você. A resposta para esse problema é upeksha, o quarto
brahmavihara.

Esse estado de mente, ensinado no Yoga e no Budismo, permite-nos responder às ações
não-virtuosas dos outros e, também, a todas as flutuações da vida, de maneira que mexa,
mas não agite. Quando cultivamos equanimidade, somos movidos pela injustiça no
mundo e motivados a fazer coisas melhores, mas nossa serenidade profunda interna não é
perturbada. Algumas vezes traduzidos por comentaristas do Yoga Sutra como “indiferença”
à face de ações imorais, não-virtuosas ou prejudiciais, upeksha é melhor entendida como
“equanimidade”, um estado de abertura de mente equilibrada que permite uma resposta
equilibrada e clara a todas situações, em vez de uma resposta cheia de reatividade ou
emoção. Upeksha não é indiferença ao sofrimento de outros, nem um estado suave de
neutralidade. De fato, significa que nos importamos, e profundamente, em deixar as coisas
equilibradas!

Esse entendimento de upeksha como equanimidade enfatiza a importância de equilíbrio.
Um coração equilibrado não é um coração sem sentimentos. O coração equilibrado sente
prazer sem se apegar e se agarrar a ele, sente dor sem condenar ou odiar, e fica aberto
para experiências neutras com presença. A professora de meditação introspectiva Sharon
Salzberg fala de equanimidade como “uma quietude espaçosa da mente”, em que podemos
ficar conectados com outros e tudo que acontece a nossa volta, enquanto permanecemos
livre de hábitos condicionados de apego ao prazer e aversão ao desagradável.

Mente silenciosa

Uma maneira de experenciar equanimidade é experimentar com meditação consciente. Em
vez de fixar a atenção em um único objeto como a respiração ou um mantra, meditação
consciente envolve a atenção momento-a-momento de mudar os objetos de percepção.
Consciência é como um holofote, brilhando atenção em todo campo da experiência,
incluindo sensações, emoções e pensamentos quando eles aparecem e vão embora no
fluxo dinâmico, sempre em mutação, que caracteriza a experiência humana do corpo e
mente. Consciência permite que veja a natureza do processo manifestado sem ser pego
na reatividade, sem se identificar com suas sensações, emoções e pensamentos. Esse
discernimento muda sua relação com corpo-mente. As ondas continuam vindo, mas você
não é levada por elas. Ou, como Swami Satchidananda costumava dizer, “você não pode
parar as ondas, mas pode aprender a surfar!” Essa habilidade de permanecer equilibrado
entre condições sempre mutáveis é o equilíbrio da equanimidade.

Há uma história antiga que ilustra a sabedoria desse estado mental. Uma das posses mais
valiosas de um fazendeiro é o cavalo que possui. Um dia ele foge. Todas as pessoas
lamentam por ele. “Que azar! Você está na pobreza agora, sem ter como puxar o arado ou
mover seus bens!” O fazendeiro apenas responde, “Eu não sei se é uma desgraça ou não;
tudo que sei é que meu cavalo se foi.”

Alguns dias depois, o cavalo retorna, com mais seis cavalos, garanhões e éguas. As pessoas
dizem: “Você está rico! Agora tem sete cavalos” De novo, o fazendeiro diz, “Não sei se sou
sortudo ou não; tudo que posso dizer é que agora tenho sete cavalos em meu estábulo.”

Alguns dias depois, quando o filho do fazendeiro tenta domar um dos garanhões, ele cai do
cavalo e quebra a perna e o ombro. Todas as pessoas lamentam seu destino: “Que terrível!
Seu filho se machucou bastante, não vai conseguir ajudar com a colheita. Que desgraça!” O
fazendeiro responde, “Não sei se é desgraça ou não; o que sei é meu filho se machucou.”

Menos de uma semana depois, o exército passa na cidade, convocando todos os jovens para
lutar na guerra... todos menos o filho do fazendeiro, que está incapaz de lutar por causa de
sua lesão.

O fato é que você não pode saber quais mudanças a vida trará ou quais serão suas
consequências. Equanimidade permite o mistério das coisas: a natureza irreconhecível,
incontrolável das coisas serem exatamente o que são. Nessa aceitação radical aparece
a paz e a liberdade – logo ali no meio de circunstâncias prazerosas ou desagradáveis
nós nos encontramos. Quando nos abrimos para a verdade de que há um mínimo que
podemos controlar além de nossas reações a circunstâncias, aprendemos a deixar pra lá.
Cultivar qualidades de bondade, compaixão, e alegria abre seu coração para os outros.
Equanimidade equilibra a doação para o amor de seu coração com reconhecimento e
aceitação que as coisas são do jeito que são. Por mais que possa se importar com alguém,
por mais que faça pelos outros, por mais que goste de controlar as coisas, equanimidade
lembra-o que todos os seres são responsáveis por suas ações, e pelas consequências delas.

Sem esse reconhecimento, é fácil cair na fadiga da compaixão, no cansaço daqueles que
ajudam e até no desespero. Equanimidade permite a você abrir o coração e oferecer amor,
bondade, compaixão e alegria, enquanto deixa suas expectativas e apegos aos resultados.
Equanimidade dota os outros três brahmaviharas com kshanti: paciência, persistência
e indulgência. Então, você mantém o coração aberto, mesmo se bondade, compaixão e
alegria apreciativa que você oferece aos outros não retorna. E quando você é confrontado
com ações não-virtuosas de outros, equanimidade permite-o sentir compaixão pelo
sofrimento que estão por baixo dessas ações assim como o sofrimento que essas ações
causam nos outros. É equanimidade que traz incomensurabilidade ou ilimitação para os
outros três brahmaviharas.

Conforto com o que é

Sua prática de asana oferece uma boa oportunidade de se tornar melhor em reconhecer
onde, quando e como você é pego ou varrido pela reatividade, e para observar seu apego
aos resultados. Você pode até observar um apego ao resultado em sua motivação para
praticar! O desejo de se sentir bem e evitar o desagradável pode condicionar toda sua
experiência de prática. Mas fixar nos resultados pode fazer você perder aspectos chaves

do processo. Enquanto continua em sua prática de asana, em algum ponto é provável que
fatores fora de seu controle – realidades anatômicas, lesões, envelhecimento, ou doença –
afetarão sua prática. Quando isso acontece, você tem a chance de praticar equanimidade se
libertando dos apegos ao resultado que você tem buscado. Equanimidade dá energia para
persistir, independente do desenlace, porque você está conectado à integridade do esforço.
No Bhagavad Gita, Krishna diz a Arjuna que essa atitude de focar na ação sem o apego ao
resultado é Yoga: “Seguro de si, resoluto, aja sem nenhum pensamento para os resultados,
aberto para o sucesso ou a falha. Essa equanimidade é Yoga.” Similarmente, Patanjali
nos diz no capítulo 1 do Yoga Sutra, sutras 12 a 16, que abhyasa, esforço contínuo, junto
com vairagya, a vontade de observar a experiência sem ser pego na reatividade, levará à
liberdade do sofrimento.

Sentando com equanimidade

Para uma prática formal para cultivar equanimidade, comece com algumas respirações
tranquilas ou uma meditação em mantra. Quando se sentir calmo, reflita no desejo de
felicidade e liberdade do sofrimento, para você e para os outros. Contemple o desejo de
servir as necessidades de outros e de ser apaixonadamente comprometido com o mundo.
Tome conhecimento tanto da alegria como do sofrimento que existe no universo – as
ações boas e más. Enquanto continua a respirar no centro do peito, tome conhecimento da
necessidade de equilibrar o desejo de fazer mudanças positivas no mundo com a realidade
de que não pode controlar as ações dos outros.

Traga à mente a imagem de alguém por quem não tenha nenhum tipo de sentimentos fortes.
Com essa pessoa nos olhos da mente, repita a seguinte frase para si mesmo, coordenando
com a expiração, se quiser:

Todos os seres, como você mesmo, são responsáveis por suas próprias ações.

Sofrimento ou felicidade são criados a partir da relação de alguém com a experiência, não
pela experiência em si.

Embora deseje apenas o melhor para você, sei que sua felicidade ou infelicidade depende
de suas ações, não de meus desejos para você.

Que você não seja pego na reatividade.

Sinta-se livre para usar outras frases similares, apropriadas e elaboradas por você. Depois
de alguns minutos, mude a atenção para seus benfeitores, incluindo professores, amigos,
família e trabalhadores invisíveis que mantêm a estrutura da sociedade. Silenciosamente
repita as frases para si mesmo enquanto contempla esses benfeitores.

Depois de alguns minutos, comece a refletir em pessoas amadas, direcionando frases a eles,
seguidas por pessoas difíceis em sua vida. Enquanto sentimentos de bondade, compaixão
e alegria por aqueles que amamos vem mais facilmente do que para aqueles com quem
temos alguma dificuldade, muitas vezes é o oposto com a equanimidade. É bem mais fácil
aceitar que aqueles que não gostamos são responsáveis pela própria felicidade do que é
para aqueles que nós nos importamos profundamente, porque nos sentimos mais apegados
a eles. Qualquer que seja sua experiência, simplesmente note alguma reatividade e veja se
pode ser equânime com sua reatividade! Estenda seu alcance depois de alguns minutos para
incluir todos os seres em qualquer lugar do mundo, e finalmente contemple a equanimidade

em relação a você, notando como assumir responsabilidade por sua própria felicidade e
infelicidade pode ser o mais difícil de tudo.

Todos os seres, incluindo eu mesmo, são responsáveis pelas suas próprias ações.

Sofrimento ou felicidade são criados a partir da relação de alguém com a experiência, não
pela experiência em si.

Embora deseje apenas o melhor para mim, sei que minha felicidade ou infelicidade depende
de minhas ações, não de meus desejos para mim mesmo.

Que eu não seja pego na reatividade.

Quando cultiva metta (a qualidade amigável de relação amável), karuna (a resposta
compassiva ao sofrimento alheio), e mudita (a alegria pela felicidade e sucesso de outros), é
a equanimidade que permite você verdadeiramente expandir a capacidade de experimentar
esse tipo de amor sem limite para aqueles além do seu círculo imediato de amigos e família,
abrindo para capacidade infinita do coração de abranger todos os seres.

Nenhum comentário:

Postar um comentário